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Director Fundador: João Ruivo Director: João Carrega Ano XXIII Nº271  Setembro 2020
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Opinião

“Pedagogia (a)crítica no Superior” (V)
Recepção aos novos estudantes

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«No fim de contas, isto não passa de uma fábrica de diplomas!

E, para eles, terem um diploma é mais importante do que ficarem a saber.»

(Crónicas Docentes, Maria Carlos Radich, 1983:73)

 

O Prof.S., durante três anos, acolheu os novos estudantes na cerimónia da rentrée académica. Tal como nas aulas, preocupou-se em evitar a rotina, não se repetindo. Mas ao terceiro ano de recepção aos 'caloiros' a tarefa complicava-se: já não havia muita imaginação para expor assuntos recorrentes e animar aquela juventude para um modelo de licenciatura curta que Bolonha impôs e cujos frutos não conseguia vislumbrar. O seu cepticismo, sobre uma formação de base reduzida a um triénio, continuava em crescendo; a jornada era curta para os lançar, devidamente preparados, no mundo do trabalho… que a dita 'crise' ia empurrando para as calendas.

À falta de documento escrito ou multimédia, tentaremos reconstruir de memória um desses discursos do Prof.S; pelos eventuais lapsos e omissões nos penitenciamos, desde já, junto do ex-presidente do CD esperando que o seu propalado (mas algo exagerado) 'mau feitio' não nos leve à barra do tribunal (onde nas «sociedades de direito» todos as querelas acabam por ir bater).

É com enorme satisfação que vos dou as boas-vindas à Escola xpto. A entrada no Superior constitui um marco significativo no vosso percurso académico e pessoal. Este é o momento por que tanto ansiaram. E por isso, é um dia muito importante nas vossas vidas. Para nós docentes é mais um arranque de um ano lectivo, para o qual nos preparámos, como sempre, com renovado entusiasmo. Para vocês, é o primeiro dia no ensino superior. Não na universidade, como muitos dos vossos colegas teimam em apelidá-la; tal como os vossos pais, quando informam orgulhosos, vizinhos e amigos, que o filho(a) «entrou na Universidade!»; ou até aqueles, que morando nas imediações da Escola, persistem em afixar anúncios de «óptimo quarto, com wi-fi, muito perto da Universidade». Clarifiquemos: esta não é uma Faculdade, é uma Escola que faz parte do ensino superior politécnico público. Nos próximos anos, será o vosso local de trabalho. Nele passarão parte significativa do vosso tempo, estudando, pesquisando, criando… crescendo. Aqui encontrarão, assim o julgamos, conhecimentos e competências necessários à profissão por que optaram (aos colocados em cursos de segunda escolha, esperemos que o ensino aqui ministrado vos convença a ficar, prescindindo de uma hipotética mudança de curso). Mas este é também um local onde podem, e devem, exercer uma cidadania activa, participando, designadamente, na AE e no CP, na construção de uma comunidade viva com diversificada vida cultural. A escola deveria ser um 'oásis': aqui deveriam sentir-se bem pois nela encontrariam tudo o que acham que falta no 'deserto' societário (sub)urbano em que residem. Todos somos chamados a criar esse enriquecedor contexto social e pedagógico.

Nos próximos tempos vão dar conta de muitas diferenças em relação aos ensinos básico e secundário que frequentaram nos últimos 12 anos. E, na maior parte dos casos, quanto maior for essa discrepância, melhor; isso indicia que estão a emergir numa cultura 'superior' e que a Escola xpto não é um up-grade do secundário (como pretendem os promotores dos CTeSP). Aldous Huxley (autor do célebre Admirável Mundo Novo) no seu livro Proper Studies (1927:115), no capítulo sobre "Educação", ao abordar "As Universidades" considera que Oxford e Cambridge têm «o melhor método de ensino» pois aí «é-se activamente encorajado a adquirir saber». Aqui, ainda estamos longe mas essa deveria ser igualmente a nossa meta.

A partir de agora estão por vossa conta. Não hesito em apostar, pois a probabilidade de acerto é alta, que os vossos pais só virão a esta escola no dia em que estiverem de saída, quando vos entregarmos o 'canudo' de fim de curso. E não é mau sinal, podem crer. Gozarão de liberdade e autonomia enormes. A contrapartida é, naturalmente, o acréscimo da responsabilidade. Terão também que aprender a gerir este 'triângulo'. Um saber que se adquire sem sebenta nem prelecção… O coordenador de curso e os colegas mais velhos são auxiliares preciosos nesse balanço de experiência e bom senso.

Depois da maratona de exames e candidaturas do 12º ano, alguns de vós correm o risco de caírem numa espécie de 'ressaca', pairando entre o descanso e a brincadeira, entretidos nas praxes que vos anestesiam a mente e emporcalham a roupa (como evitá-las?). Sendo as UC, no 1º ano, todas semestrais, quando dão por isso estão no final do 1º semestre, descuidaram as avaliações, e as notas finais… são um balde de água fria. Deixo-vos, pois, um 'aviso à navegação', socorrendo-me de um grande escritor português, Jorge de Sena, e de um seu romance, Sinais de Fogo (de 1979, adaptado ao cinema, em 1995, por Luís Filipe Rocha):

«Porque éramos livres de entrar e sair da faculdade, e ninguém nos perguntava para onde íamos, e estávamos - pelo menos nós três - muito mais longe de casa, a sensação de liberdade era absoluta, tão absoluta, que quase perdemos o hábito de estudar regularmente.»

Por favor, tenham sempre presente que, enquanto estiverem nesta instituição, estudar e concluir o curso (sem reprovações) é o vosso objectivo prioritário. Divertirem-se, arranjar amigos e namorado(a) são efeitos colaterais… positivos. Votos de um excelente ano escolar.

Ouviram-se aplausos no anfiteatro. Mas nos dias de hoje, aplaude-se sempre porque não há critério e tudo é entendido como espectáculo.

Luís Souta
Este texto está redigido segundo a “antiga” e identitária ortografia
luis.souta@ese.ips.pt
 
 
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